
À esquerda, Thalita Forne (B3). Ao centro, Eduardo Arraes (BTG). À direita, Bruno Stein (Galapagos)
O mercado brasileiro já conta com 71 ETFs de renda fixa, dentro de um universo de mais de 200 ETFs disponíveis para negociação. Ao abrir o painel, Thalita Forne destacou que a categoria tem pouco mais de sete anos, mas apresentou forte crescimento, especialmente no período mais recente.
A expansão ocorreu em títulos públicos, debêntures e infraestrutura, acompanhando o desenvolvimento mais amplo da renda fixa brasileira. Para Eduardo Arraes, o mercado deverá avançar para produtos segmentados por nível de risco, setor, tipo de emissor e tratamento tributário. Entre as possibilidades estão ETFs de high yield, debêntures de infraestrutura e carteiras concentradas em segmentos econômicos específicos.
ETF funciona como tecnologia de acesso
Bruno Stein definiu o ETF como uma tecnologia de acesso a classes de ativos. Na avaliação do representante da BlackRock, o desenvolvimento da indústria deve começar pela existência de demanda concreta, em vez de simplesmente reproduzir no Brasil todos os produtos disponíveis no mercado americano.
Segundo Stein, a base operacional e tributária dos ETFs brasileiros de renda fixa ficou efetivamente alinhada em 2024. A partir daquele momento, os fundos passaram a oferecer uma alternativa eficiente para exposições tributadas, com vantagens operacionais e de custos em relação à compra direta de determinados títulos e a fundos tradicionais mais caros.

Stein dividiu os produtos em dois grupos. O primeiro oferece acesso eficiente a exposições já líquidas, como títulos públicos. O segundo reúne estratégias capazes de transformar mercados menos transparentes, especialmente o crédito privado, ao criar referências recorrentes de preço e negociação.
Duration permite construir exposições mais precisas
Ao abordar o risco de juros, Thalita Forne questionou como duration e posicionamento na curva podem orientar a escolha dos ETFs. Bruno Stein explicou que a marcação a mercado permite comprar exposições específicas e utilizar produtos diferentes conforme o objetivo de alocação ou negociação.
As famílias tradicionais de índices de renda fixa começaram a ser complementadas por referências mais segmentadas, incluindo índices de duration constante para títulos prefixados ou indexados à inflação. A mesma evolução pode chegar ao crédito privado, com carteiras separadas por origem, porte, qualidade e classificação de risco.
Stein avaliou que essa especialização poderá ampliar o uso institucional dos ETFs. Gestores ativos poderão recorrer aos fundos para ajustar rapidamente a exposição a diferentes pontos da curva, sem precisar negociar individualmente todos os títulos ou montar estruturas com derivativos.
Spread de crédito precisa ser comparado ao risco
Eduardo Arraes explicou que a avaliação de um ETF de crédito não deve se limitar ao retorno adicional oferecido pela carteira. A análise precisa considerar a evolução histórica do spread médio, a alavancagem dos emissores e a classificação de risco dos títulos.
O representante do BTG Pactual Asset destacou uma particularidade do mercado brasileiro. Quando os juros sobem, as empresas podem enfrentar maior dificuldade para gerar caixa, aumentando o risco de crédito. Ao mesmo tempo, a procura dos investidores por fundos de renda fixa cresce, elevando a demanda por títulos e pressionando os spreads para baixo.
Essa combinação pode produzir um cenário no qual a remuneração adicional diminui justamente quando o risco dos emissores aumenta. Para Arraes, acompanhar spreads, alavancagem e ratings ao longo do tempo ajuda a avaliar se a remuneração oferecida pela carteira compensa o risco assumido.
Crédito privado amplia acesso, mas desafia a replicação
Eduardo Arraes citou o DEB11 como uma representação do universo mais líquido de debêntures brasileiras. Segundo o gestor, porém, a baixa frequência de negociação de alguns papéis impede a reprodução exata do índice, exigindo o uso de ativos semelhantes e pequenos ajustes na composição.
Apesar dessa dificuldade, os ETFs oferecem uma vantagem importante sobre a compra direta de títulos menos líquidos. Arraes observou que investidores com CRIs, CRAs, debêntures high yield ou emissões de empresas menores podem enfrentar dificuldades para vender suas posições em períodos de estresse. No ETF, o formador de mercado apresenta cotações e permite negociar a exposição em bolsa.
Bruno Stein acrescentou que os ETFs de crédito podem criar uma camada adicional de liquidez. A negociação da cota estabelece uma referência de preço para uma fração da carteira, contribuindo para a formação de preços em um mercado no qual muitos títulos são negociados com pouca frequência.
Educação deve sustentar a próxima fase
Bruno Stein avaliou que os produtos mais consolidados já encontraram demanda e precisam principalmente de educação e distribuição. O desafio está em explicar as exposições existentes, seus riscos e sua utilização na construção de carteiras.
Thalita Forne destacou que a B3 tem investido em liquidez, educação, distribuição e transparência. Entre as iniciativas mencionadas está uma certificação específica para assessores de investimentos sobre o mercado de ETFs, criada em 2025.
A próxima etapa deverá combinar o crescimento dos ETFs de títulos públicos com o desenvolvimento gradual do crédito privado. O avanço dependerá da liquidez dos papéis, da segmentação das carteiras e da capacidade de investidores e assessores avaliarem duration, spread, alavancagem e risco de crédito.