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ETFs avançam de blocos básicos para soluções completas de portfólio

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À esquerda, Rogério Santana (B3). Ao centro, Cristiano Castro (BlackRock). À direita, Renato Nobile (Buena Vista)

 

O mercado brasileiro já ultrapassou 200 ETFs, ampliando as possibilidades de construção de carteiras com produtos locais e internacionais. No painel moderado por Rogério Santana, da B3, os participantes destacaram que o mesmo veículo pode cumprir funções diferentes conforme o perfil, os objetivos e o grau de sofisticação do investidor.

Cristiano Castro explicou que a pessoa física tende a utilizar ETFs como blocos básicos para começar uma carteira. Investidores de alta renda podem adicionar mais estratégias, enquanto family offices combinam produtos líquidos e de baixo custo com ativos internacionais e mercados privados, considerando também necessidades sucessórias e multigeracionais.

Fundos de pensão, por sua vez, podem empregar ETFs na gestão de ativos e passivos e em objetivos de longo prazo. Segundo Castro, fundos soberanos e endowments observam o veículo principalmente pela perspectiva da alocação entre classes de ativos.

Produtos centrais e satélites atendem a objetivos distintos

Renato Nobile dividiu as estratégias entre produtos centrais e satélites. O núcleo inclui exposições amplas, como Ibovespa, S&P 500 e Nasdaq, nas quais custo e eficiência têm papel relevante. Os satélites procuram entregar objetivos específicos, como geração de alfa, renda ou proteção.

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Essa divisão não depende apenas da categoria do investidor. Um ETF de dividendos pode ser usado por uma pessoa física interessada em fluxo mensal ou por uma instituição que pretenda reduzir a volatilidade de uma exposição ampla por meio de dividendos sintéticos. O veículo permanece o mesmo, mas sua função muda conforme a construção da carteira.

Ao tratar da concorrência entre produtos semelhantes, Nobile afirmou que a multiplicação de ETFs com exposições próximas pode beneficiar o investidor. A disputa entre gestoras tende a envolver custos, eficiência de execução e características tributárias, permitindo comparar diferentes soluções para um mesmo segmento.

Modelos de portfólio tornam a alocação escalável

Os modelos de portfólio apareceram como uma ferramenta para organizar a seleção entre centenas de produtos. Cristiano Castro informou que aproximadamente 40% dos fluxos destinados a ETFs nos Estados Unidos passam por modelos, em um mercado no qual a remuneração fee-based se aproxima de 65%. Na Europa, esse modelo representa cerca de 45%.

Segundo Castro, esses modelos partem de premissas de longo prazo sobre fatores macroeconômicos e podem ser organizados por objetivos ou metas de risco, em vez de depender apenas das classificações tradicionais de perfil. Algumas carteiras utilizam oito ETFs em proporções predefinidas, com rebalanceamentos trimestrais, quadrimestrais ou anuais.

A automação do rebalanceamento permite que o assessor dedique menos tempo à operação cotidiana e concentre sua atuação no planejamento patrimonial e nas demais necessidades do cliente. Renato Nobile acrescentou que ferramentas de dados e plataformas voltadas à gestão de modelos também começam a se desenvolver no Brasil.

EWBZ11 reduz a concentração dos índices ponderados por mercado

Ao comparar índices amplos de ações brasileiras, Cristiano Castro mencionou o tradicional BOVA11 e o EWBZ11, lançado para acompanhar o índice B3 BR+ de pesos iguais. O segundo produto reúne mais de 89 papéis, incluindo BDRs de empresas brasileiras listadas no exterior, com aproximadamente 1,2% por ativo a cada rebalanceamento quadrimestral.

A ponderação igualitária reduz a influência das maiores empresas em comparação com índices ponderados pelo valor de mercado. De acordo com Castro, a metodologia diminui a participação relativa de serviços financeiros e energia, ao mesmo tempo que amplia o peso de consumo cíclico e discricionário.

Além da metodologia, o executivo destacou a disciplina de rebalanceamento. Sem ajustes periódicos, a valorização de determinadas posições pode aumentar a concentração da carteira. A análise também precisa considerar exposições repetidas a empresas e fatores, como valor e momento, que podem aparecer simultaneamente em diferentes ETFs.

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Estratégias sintéticas transformam exposição em renda

Renato Nobile propôs substituir a ideia de uma carteira baseada em determinada classe de produto por uma carteira orientada ao objetivo de renda. Essa mudança permite combinar fundos imobiliários, ações, commodities, criptoativos e estratégias com opções, desde que a finalidade seja gerar fluxo periódico.

Os dividendos sintéticos utilizam opções para gerar renda sobre ativos que podem distribuir pouco ou nenhum rendimento diretamente. Como exemplo, Nobile comparou a exposição convencional ao S&P 500 com um ETF que utiliza covered calls. Segundo ele, a estratégia pode elevar uma distribuição próxima de 1,2% ao ano para cerca de 12%, em troca da renúncia a parte da valorização do índice.

A escolha depende do objetivo do investidor. Quem procura acompanhar integralmente uma alta deve considerar uma exposição ampla, enquanto a estratégia com opções prioriza a geração de renda. Nobile também alertou que o rendimento não substitui a análise do risco subjacente, especialmente em produtos ligados a ativos voláteis, como o Bitcoin.

Disciplina precisa acompanhar a ampliação da oferta

Cristiano Castro defendeu rebalanceamentos trimestrais ou semestrais para reduzir decisões motivadas por movimentos de curto prazo. A disciplina também preserva a distribuição planejada entre o núcleo da carteira e as posições satélites.

A avaliação não deve ficar restrita aos pesos nominais. Segundo o executivo, diferentes ETFs podem compartilhar empresas ou fatores e criar concentrações pouco evidentes. Ferramentas de decomposição ajudam a identificar esses riscos e a relacionar a alocação aos objetivos do investidor.

Renato Nobile relacionou o recebimento de renda a um comportamento mais estável. Ele afirmou que os ETFs de dividendos acompanhados pela Buena Vista apresentaram níveis muito baixos de resgate, mas reforçou que o investidor precisa compreender a exposição que sustenta o pagamento antes de selecionar o produto.

ETF deixa de representar apenas gestão passiva

Na conclusão, Renato Nobile definiu o ETF como um veículo capaz de acomodar diferentes estratégias. Para ele, transparência, eficiência, liquidez e custo permitem que o formato ocupe uma parcela crescente das carteiras e dos modelos de portfólio.

Cristiano Castro destacou que a indústria passou dos ETFs passivos de ações para renda fixa, alavancagem, posições vendidas, estratégias de proteção, resultados definidos e gestão ativa. Nos Estados Unidos, segundo o executivo, fundos mútuos vêm sendo encerrados enquanto estratégias equivalentes são transferidas para estruturas de ETF.

No Brasil, o avanço incluiu o crescimento da renda fixa, a listagem de BDRs de ETFs e o início da oferta local de BDRs ligados a ETFs ativos internacionais. Castro também apontou tokenização e mercados privados como possíveis etapas posteriores dessa evolução.

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