
À esquerda, Jackeline Melaines (B3). Ao centro, Samir Kerbage (Hashdex). À direita, Guilherme Gomes (Oranje BTC)
O Brasil já possui mais de 40 ETFs de criptoativos listados na B3, segundo os números apresentados por Jackeline Melaines, moderadora do painel. Ela também citou uma pesquisa do Datafolha, realizada com a Paradigma e a Hashdex, segundo a qual aproximadamente 30 milhões de brasileiros investem em criptoativos.
A expansão da oferta ocorreu paralelamente à entrada de investidores institucionais na classe. Guilherme Gomes recordou que o Bitcoin surgiu fora do mercado financeiro tradicional e alcançou valor de mercado entre US$ 1,5 trilhão e US$ 1,6 trilhão. Para o executivo, a consolidação do ativo como reserva de valor está reduzindo parte da resistência dos investidores profissionais.
Samir Kerbage apresentou a diversificação como o principal argumento para a inclusão dos criptoativos nas carteiras. Segundo o representante da Hashdex, a correlação histórica entre criptoativos e os componentes tradicionais das carteiras brasileiras é próxima de zero. Uma alocação pequena, acompanhada de rebalanceamento disciplinado, pode melhorar a relação entre risco e retorno no longo prazo.
Diversificação reduz a necessidade de escolher vencedores
Ao comparar ETFs monoativos e cestas diversificadas, Kerbage afirmou que a escolha de vencedores é particularmente difícil em uma tecnologia emergente. Na avaliação dele, o investidor que está começando na classe pode partir de um índice passivo e, depois de ganhar familiaridade, considerar exposições específicas ou estratégias baseadas em fatores.
O índice desenvolvido pela Hashdex em parceria com a Nasdaq utiliza critérios de elegibilidade para selecionar os ativos. Entre as exigências estão negociação em mercados regulados, suporte de custodiantes institucionais, liquidez mínima, representatividade e um mercado de futuros líquido nos Estados Unidos que possa sustentar um produto regulado naquele país.
Segundo Kerbage, o universo é reavaliado trimestralmente. Criptoativos podem entrar ou sair à medida que atendem ou deixam de atender aos critérios. Como a ponderação considera o valor de mercado, o índice pode permanecer concentrado em Bitcoin ou incorporar progressivamente mais ativos conforme a indústria se desenvolve.
Empresas com Bitcoin criam outra forma de exposição

Guilherme Gomes apresentou as companhias que mantêm Bitcoin em tesouraria como outra possibilidade de participação no ecossistema. Essas empresas utilizam o mercado de capitais para financiar a aquisição do ativo e procuram elevar ao longo do tempo a quantidade de Bitcoin correspondente a cada ação.
O executivo diferenciou três formas de exposição. A custódia própria oferece controle direto, mas exige que o investidor proteja as chaves de acesso. Os ETFs simplificam a aquisição e utilizam custodiantes institucionais, embora cobrem taxa de administração e não transfiram ao cotista a custódia direta. As empresas de tesouraria, por sua vez, combinam a exposição ao Bitcoin com a estrutura de capital de uma companhia listada.
Como referência, Gomes informou que a Oranje BTC mantinha 3.950 Bitcoins em seu balanço. A métrica de acompanhamento é o Bitcoin per share, calculado pela divisão das reservas da companhia pelo número de ações. O objetivo declarado dessa estrutura é aumentar a exposição por ação ao longo do tempo.
Derivativos permitem proteção e geração de renda
A B3 também ampliou o mercado de derivativos relacionado aos ativos digitais. Jackeline Melaines mencionou os contratos futuros de Bitcoin, Ether e Solana, além das opções sobre ETFs e futuros.
Samir Kerbage explicou que opções e futuros permitem construir estratégias que não dependem apenas da compra direcional de uma cota. O investidor pode utilizar opções de venda e de compra para limitar perdas, preservar parte da participação em uma eventual alta ou gerar renda sobre uma posição existente por meio do lançamento de opções.
Kerbage citou HASH11 e BITH11 entre os produtos com derivativos disponíveis. Segundo o executivo, essas estruturas também ampliam as possibilidades para gestores que pretendem utilizar criptoativos em estratégias de proteção ou geração de retorno adicional sem carregar integralmente a volatilidade de uma posição comprada.
DIGY11 combina ativos digitais e renda periódica
Guilherme Gomes também apresentou o DIGY11, primeiro ETF lançado pela Oranje BTC. O fundo acompanha um índice passivo desenvolvido com a VettaFi e investe em ações preferenciais emitidas por companhias que mantêm Bitcoin no balanço e distribuem dividendos.
Segundo o executivo, o produto utiliza proteção cambial e pretende distribuir os rendimentos em reais. A expectativa apresentada no painel é de pagamentos entre 18% e 19% ao ano em reais, com a cota negociada próxima de R$ 10. Esses valores representam objetivos da estratégia, e não retornos garantidos.
Gomes explicou que os pagamentos dependem da capacidade financeira das companhias emissoras das ações preferenciais. Essas empresas podem utilizar seus balanços, emitir ações ou vender parte das reservas de Bitcoin para cumprir as obrigações. A estrutura pressupõe que a valorização futura do ativo supere o custo dos dividendos pagos aos acionistas preferenciais.
Preços e fundamentos seguem em direções diferentes
Na parte final do painel, Samir Kerbage afirmou que o mercado atravessava um período de baixa, com o Bitcoin quase 40% abaixo das máximas do ano anterior. Ao mesmo tempo, avaliou que os fundamentos da tecnologia haviam avançado, especialmente com o aumento da clareza regulatória nos Estados Unidos.

Kerbage manteve uma visão positiva para horizontes de um ano ou mais, mas ressaltou que geopolítica, condições macroeconômicas e outros eventos poderiam produzir volatilidade no curto prazo. A avaliação apresentada diferenciou a evolução da infraestrutura e da adoção das oscilações imediatas de preço.
Guilherme Gomes destacou a oferta de custódia por instituições como Bradesco e BNY Mellon como sinal da entrada do Bitcoin no mercado institucional. Para o executivo, a natureza descentralizada e a oferta escassa do ativo ganham relevância em um cenário de elevado endividamento dos governos, embora sua trajetória continue marcada por volatilidade.