A persistência dos preços elevados do petróleo, as pressões inflacionárias globais e a fragilidade das contas públicas brasileiras reduzem o espaço para uma flexibilização mais rápida dos juros no país. Essa foi a avaliação de João Machado, economista sênior da S&P Global Market Intelligence, durante a apresentação “Panorama Macro Global”, no Brazil Indexing & ETF Masterclass 2026, em São Paulo.
Para o economista, o Brasil deve entrar em 2027 com fundamentos mais frágeis, em um ambiente internacional vulnerável a novos choques. A perspectiva é de desaceleração da atividade, com riscos de crescimento menor, embora o cenário apresentado ainda não seja recessivo.
“A gente ainda vê uma margem pra flexibilização da taxa de juros, mas que vem sendo cada vez mais limitada”, afirmou.
Petróleo transmite pressão para além dos combustíveis

Machado descreveu o contexto global como “muito mais dividido, mais caro e mais incerto”. Conflitos geopolíticos, disputas comerciais e riscos nas rotas marítimas passaram a ocupar uma posição central nas premissas macroeconômicas da instituição.
Na apresentação, o economista citou o petróleo em torno de US$ 120 por barril e discutiu um cenário de convergência para aproximadamente US$ 80. Mesmo com esse recuo, avaliou que as condições seriam diferentes das observadas no início do ano.
O ponto principal, explicou, é a persistência do choque e sua transmissão à formação de preços. O impacto começa em energia e combustíveis, mas pode alcançar outros componentes da economia, por meio dos chamados efeitos de segunda ordem. O uso de estoques por grandes consumidores, como China e Estados Unidos, ofereceu um amortecedor inicial, com limites para sustentar esse alívio.
Esse quadro levou a revisões das projeções de inflação não apenas para 2026, mas também para 2027. Machado acrescentou os riscos climáticos associados ao El Niño, com preocupação sobre os preços dos alimentos e seus efeitos no fim deste ano e no início do próximo.
Investimentos em tecnologia amortecem a desaceleração
A combinação de inflação mais pressionada e juros elevados levou a S&P Global a reduzir suas expectativas de crescimento mundial em relação ao início do ano. O efeito sobre a atividade, porém, foi menos severo do que a instituição esperava.
Machado atribuiu parte dessa resistência aos investimentos em tecnologia e inteligência artificial. Nos Estados Unidos, a atividade e o mercado de trabalho também se mostraram mais fortes do que o previsto, amortecendo os efeitos dos choques de oferta e do aperto financeiro.
Esses fatores não eliminam a desaceleração no cenário apresentado. O economista destacou a sucessão de choques enfrentados pela economia mundial, incluindo conflitos e disputas tarifárias, como elemento que mantém elevada a incerteza sobre crescimento, inflação e decisões dos bancos centrais.
No Brasil, desaceleração alcança setores sensíveis ao crédito

O Brasil já enfrentava condições financeiras restritivas antes do agravamento do cenário externo, observou Machado. Os juros pressionam os balanços das empresas e das famílias, enquanto o impulso fiscal atua na direção contrária, compondo o que ele descreveu como um “cabo de guerra”.
A atividade, que contou com contribuições da indústria extrativa e da agricultura em determinados momentos, tende a sentir uma desaceleração mais disseminada. Os setores dependentes de crédito e mais sensíveis aos juros estão entre os mais expostos a esse movimento.
O economista também afirmou que a reprecificação dos ativos observada no contexto pós-eleitoral influenciaria a rodada seguinte de projeções, em novembro. Sua avaliação foi de que esse processo acrescentava riscos de baixa para o crescimento e restringia a liberdade do Banco Central para acelerar a flexibilização monetária.
Fiscal será central para a trajetória dos juros
As contas públicas foram apontadas como o principal ponto de fragilidade do cenário doméstico. Machado relacionou o resultado primário negativo, a pressão de despesas e o custo elevado dos juros ao aumento da relação entre dívida e PIB.

“É o ponto de maior fragilidade, que vai ser acompanhado de perto pelo mercado”, afirmou sobre o quadro fiscal.
O mecanismo descrito é de retroalimentação: a piora da dívida acrescenta prêmio de risco e juros, que, por sua vez, tornam mais oneroso o financiamento das contas públicas. Nesse contexto, o economista defendeu sinais mais concretos sobre as medidas propostas e a construção de uma trajetória fiscal sustentável.
Para acompanhar os próximos desdobramentos, Machado destacou a agenda econômica, a evolução dos preços dos alimentos, os riscos climáticos, a geopolítica e os juros soberanos de longo prazo nas principais economias. São variáveis que influenciam tanto o custo do crédito quanto a avaliação dos ativos.
A conclusão da apresentação conectou esse conjunto de riscos à construção das carteiras: o cenário macroeconômico orienta a análise, mas cabe à decisão de alocação transformá-lo em escolhas de investimento.