
À esquerda, Felipe Almeida (B3). Ao centro, Caue Mançanares (Investo), À direita, William May (IDEX Analytics)
O crescimento dos ETFs de renda fixa no Brasil não ocorreu apenas em volume. A expansão da oferta criou instrumentos capazes de atender desde a gestão de recursos de curto prazo até estratégias envolvendo inflação, movimentos da curva de juros, crédito privado e títulos internacionais.
Na abertura do painel, Felipe Almeida, da B3, informou que a categoria já reunia mais de R$ 60 bilhões em patrimônio, ante R$ 15 bilhões um ano antes. O volume diário negociado superava R$ 500 milhões. Para o moderador, além de simples e eficiente, o ETF pode contribuir para a sofisticação das estratégias disponíveis no mercado local.
A variedade de produtos permite que a construção da carteira comece por exposições mais básicas e avance gradualmente. Em vez de tratar a renda fixa como uma única classe, o investidor pode separar as decisões sobre indexador, prazo e risco de crédito.
Três decisões orientam a construção da carteira
William May organizou a alocação em renda fixa em torno de três critérios. O primeiro é o indexador, que pode ser prefixado, pós-fixado, associado à Selic ou vinculado à inflação. O segundo é a duration, responsável por definir a sensibilidade da carteira aos movimentos da curva de juros. O terceiro é o risco de crédito, que pode envolver o governo brasileiro, emissores soberanos estrangeiros ou empresas privadas.
Segundo o representante da IDEX Analytics, o mercado contava com aproximadamente 70 ETFs de renda fixa e já permitia montar exposições específicas. O investidor podia acessar títulos públicos com prazo determinado, estratégias relacionadas a NTN-F e LTN e carteiras pulverizadas de debêntures com aplicações a partir de R$ 100.
May também destacou características tributárias e operacionais apresentadas como vantagens dos ETFs. Entre elas estão a ausência de IOF e a definição antecipada da tributação no curto prazo, além da facilidade para reinvestir cupons e da ausência de come-cotas no longo prazo. Para ele, a discussão deixou de ser apenas se o investidor deve ter renda fixa e passou a incluir quais riscos específicos pretende carregar sistematicamente.
Carteira pode evoluir do pós-fixado ao crédito privado
Cauê Mançanares apresentou uma construção gradual da carteira, começando pelos títulos públicos pós-fixados. Segundo o representante da Investo, essa exposição pode atender às necessidades de curto prazo e reduzir a volatilidade do portfólio, ajudando o investidor a manter a disciplina ao longo do tempo.
A segunda camada seria formada por títulos vinculados à inflação, voltados à preservação do poder de compra em horizontes superiores a dois anos. A partir dessa base, seria possível adicionar exposições prefixadas, letras financeiras bancárias, crédito privado e renda fixa internacional, conforme o conhecimento e a tolerância do investidor às oscilações.
Para Mançanares, essa progressão evita que a grande quantidade de produtos paralise a tomada de decisão. Uma carteira pode permanecer simples, combinando pós-fixados e inflação, ou ganhar complexidade gradualmente. O executivo observou, porém, que a B3 ainda tem espaço para ampliar a oferta em crédito privado, títulos prefixados e renda fixa internacional.
Índice precisa ser replicável, não apenas atrativo
A ampliação da oferta depende da construção de índices que possam ser reproduzidos por um ETF. William May explicou que a metodologia deve responder a cinco questões: quais ativos podem entrar, como serão ponderados, de onde virão os preços, quais serão as regras de rebalanceamento e saída, e qual é a liquidez dos componentes.
No crédito privado, a ponderação exige atenção especial. Diferentemente do mercado acionário, no qual empresas maiores geralmente recebem mais peso, atribuir maior participação ao emissor que possui mais dívida pode produzir uma concentração indesejada. Por isso, o investidor precisa observar os limites por empresa e setor, os critérios de liquidez, o tamanho das emissões e as classificações de risco.
May também destacou a importância das regras para situações adversas. A metodologia deve estabelecer como o índice reage a inadimplência, recuperação judicial e perda de liquidez. O rebalanceamento precisa considerar os custos de comprar e vender os papéis, o que torna inviável, segundo o painelista, uma recomposição diária em determinados índices de crédito.

Crédito privado ainda enfrenta limitações de preço e liquidez
A principal dificuldade para criar índices sofisticados de crédito privado está na capacidade de precificar e negociar os papéis. William May afirmou que o estoque desses ativos somava aproximadamente R$ 3 trilhões, mas apenas um terço apresentava preços recorrentes. O restante dependia da marcação realizada pelos administradores.
Na avaliação do executivo, o mercado precisa avançar na digitalização e reduzir a dependência das negociações de balcão. Ele citou o TradeIn e outras iniciativas da B3 voltadas à melhoria da infraestrutura de dados. Mais informações permitiriam formar preços melhores, que poderiam favorecer a liquidez e, posteriormente, a criação de novos índices e produtos.
A existência de uma metodologia teoricamente atrativa, portanto, não é suficiente. Para May, o desafio é construir um índice que o gestor consiga replicar na prática, utilizando ativos com preços verificáveis e liquidez compatível com as entradas, saídas e recomposições da carteira.
Renda fixa internacional acrescenta outra fonte de diversificação

Cauê Mançanares apresentou a renda fixa internacional como uma peça adicional na construção de um portfólio com diferentes fontes de risco. Segundo ele, as exposições locais permanecem relacionadas ao real, enquanto os títulos estrangeiros podem acrescentar uma classe de ativos e uma moeda diferentes.
Os ETFs listados na B3 permitem acessar índices internacionais de renda fixa com a variação cambial incorporada, sem a necessidade de remeter recursos para outro país. Mançanares associou essa estrutura à eliminação dos custos de envio, IOF e spread cambial, além da permanência em um ambiente regulatório conhecido pelo investidor brasileiro.
Felipe Almeida reforçou que a negociação local preserva a exposição econômica ao índice internacional. A diferença está na facilidade operacional de comprar o ETF por meio da corretora brasileira, e não na natureza do risco entregue pelo produto.
Demanda passa a conduzir a expansão do mercado
Ao discutir os próximos passos, Cauê Mançanares comparou o estágio atual com o mercado de 2020, quando havia menos infraestrutura, participantes e interesse dos investidores. Para ele, a demanda ganhou tração e passou a incentivar o desenvolvimento de novos produtos, índices e serviços.
O representante da Investo defendeu a ampliação de eventos, conteúdos e produtos para acompanhar esse movimento. Na avaliação dele, a formação de uma massa crítica também pode estimular melhorias na regulação, na tributação e na infraestrutura da indústria.
William May citou ainda a alocação de R$ 1 bilhão anunciada pelo BNDES para incentivar o mercado. O executivo afirmou acreditar que os ETFs brasileiros podem alcançar R$ 1 trilhão em patrimônio até 2030, apoiados pela chegada de novos produtos, gestoras, administradores e provedores de índices.