
À esquerda, Felipe Paiva (B3). Ao centro, Leonardo Vasques (XP Asset). À direita, Filipe Coelho (BB Asset)
O mercado brasileiro chegou a 219 ETFs, dos quais 121 ofereciam exposição local e 98, internacional. Considerando também mais de 300 ETFs internacionais disponíveis, o número de produtos listados se aproximava de 500. Na abertura do painel, Felipe Paiva, da B3, informou que a indústria reunia R$ 130 bilhões e movimentava cerca de R$ 1,6 bilhão por dia.
A expansão da oferta, contudo, não elimina o desafio de transformar os produtos em carteiras coerentes. Leonardo Vasques explicou que a XP combina o lançamento de veículos com pesquisa, conteúdo, sugestões de alocação e carteiras automatizadas. Para o executivo, o ETF é um meio de acessar determinado ativo, mas precisa integrar uma estratégia mais ampla.
Filipe Coelho também relacionou a ampliação da prateleira à necessidade de oferecer escolhas duradouras. Segundo o representante do Banco do Brasil, a diversificação pode abranger diferentes mercados, moedas e commodities, evitando que a carteira fique concentrada somente nas exposições mais tradicionais.
Produtos locais ampliam o acesso ao exterior
Leonardo Vasques afirmou que a indústria brasileira já oferece veículos locais para algumas das principais exposições internacionais. A XP participou do lançamento de BDRs de ETFs ligados ao Nasdaq e ao ouro e passou a trabalhar também com produtos que oferecem exposição à China, aos Estados Unidos e a estratégias com proteção cambial.
Esses veículos permitem que o investidor mantenha a operação na infraestrutura brasileira, sem impedir a alternativa de investir diretamente no exterior. Segundo Vasques, as duas possibilidades fazem sentido. Os produtos locais podem atender quem busca exposição financeira por meio de uma corretora brasileira, enquanto a conta internacional pode ser adequada a quem deseja manter recursos fora do país.
Filipe Coelho concordou que as alternativas devem ser apresentadas sem estabelecer uma solução universal. A escolha precisa considerar a eficiência de manter uma conta internacional, as obrigações tributárias e a possibilidade de reproduzir a exposição desejada por meio de um veículo negociado no Brasil.
Exposição ao ativo não exige necessariamente risco cambial
Ao conduzir a discussão, Felipe Paiva separou a diversificação internacional em duas decisões: a exposição ao ativo estrangeiro e a exposição à moeda. Os produtos podem incorporar a variação cambial ou utilizar proteção para reduzir seu efeito sobre o retorno em reais.

Filipe Coelho defendeu a disponibilidade das duas estruturas. Para ele, os ETFs precisam ser simples e oferecer alternativas compatíveis com diferentes perfis de risco, incluindo produtos com e sem hedge e exposições a moedas além do dólar.
Leonardo Vasques observou que investidores frequentemente escolhem entre essas alternativas olhando para a rentabilidade recente. Quando o dólar cai, cresce a preferência por cotas protegidas. Quando sobe, aumenta a procura pela exposição cambial. Para ele, o objetivo da diversificação internacional não é necessariamente elevar o retorno, mas reduzir riscos e tornar o portfólio mais resiliente em diferentes cenários.
Commodities também ampliam a diversificação
A expansão da oferta não se limita a índices de ações. Filipe Coelho destacou o desenvolvimento de produtos ligados a commodities como milho e boi, criados a partir da experiência do Banco do Brasil com o setor rural e das demandas identificadas entre sua base de clientes e agências.
Segundo Filipe, os contratos desses mercados podem ser difíceis de acessar diretamente por parte dos investidores. Os ETFs transformam essa exposição em uma cota negociada em bolsa, reduzindo barreiras operacionais e financeiras.
A proposta do Banco do Brasil é ampliar as alternativas dentro de cada segmento, em vez de concentrar a oferta em um único ativo. Essa abordagem inclui diferentes commodities e moedas e procura oferecer exposições que possam permanecer na carteira por períodos mais longos.
Educação permanece como barreira ao crescimento
Embora a indústria brasileira já apresente custos competitivos, Leonardo Vasques identificou educação e regulação como as principais barreiras para uma expansão mais rápida. Segundo ele, muitos investidores continuam em fundos tradicionais mais caros porque desconhecem a existência dos ETFs, sua estrutura de liquidez ou a forma de utilizá-los.
O gestor também destacou a concentração das carteiras de pessoas físicas. Investidores que ingressam na bolsa com apenas duas ou três ações ficam expostos a riscos específicos elevados. Na avaliação de Vasques, um ETF amplo pode oferecer uma primeira experiência mais diversificada, enquanto investidores mais sofisticados podem utilizar o mesmo veículo na construção de portfólios complexos.
Em relação à distribuição, Vasques afirmou que parte relevante do trabalho educacional da XP é direcionada aos assessores e consultores, que atuam como multiplicadores junto aos clientes. Filipe Coelho destacou os canais digitais como a principal porta de entrada das pessoas físicas no mercado de capitais e defendeu o uso de plataformas e mídias digitais para oferecer uma base inicial de informação.
Crédito privado aparece como desafio regulatório

Na avaliação de Leonardo Vasques, a estrutura de custos dos ETFs brasileiros já é competitiva. O desafio regulatório mais relevante está no crédito privado, segmento que concentra entre 60% e 70% da captação das gestoras brasileiras, segundo os números mencionados durante o painel.
Vasques também citou produtos inversos e alavancados, mas os classificou como estratégias de nicho. O crédito privado, por outro lado, poderia ocupar uma parcela maior da indústria brasileira de ETFs por sua importância no mercado local.
Filipe Coelho acrescentou que a redução de custos não deve ser interpretada apenas como perda de receita para a gestora. Produtos mais eficientes podem ampliar o acesso e atrair novos investidores. Para ele, o crescimento envolve não somente a taxa de administração, mas também o custo total das transações e da manutenção da exposição.
Diversificação busca reduzir risco, não prever o próximo movimento
A mensagem central do painel foi que diversificar internacionalmente não significa procurar apenas o mercado ou a moeda com melhor desempenho recente. A escolha deve considerar a função de cada exposição na carteira e o risco que o investidor pretende reduzir.
Leonardo Vasques defendeu que produtos locais e contas internacionais são caminhos válidos, cada um com vantagens e limitações. Filipe Coelho reforçou que a decisão deve partir das necessidades do cliente, sem classificar uma forma de acesso como universalmente superior.
No encerramento, Felipe Paiva relacionou a próxima fase da indústria à formação de uma nova base de investidores. O representante da B3 citou iniciativas de educação financeira que alcançam mais de 12 milhões de crianças e vinculou esse trabalho à ambição de ampliar, no futuro, o número de pessoas e o patrimônio investidos em ETFs.