
À esquerda, João Morbim (B3). Ao centro, Flavio Vegas (Global X), À direita, Isabella Nunes (JP Morgan)
No painel moderado por João Morbim, da B3, Flavio Vegas afirmou que a maior parte das carteiras brasileiras permanece concentrada em renda fixa local, fundos imobiliários e ações domésticas. A exposição internacional, quando existe, costuma priorizar índices amplos, como S&P 500 e Nasdaq.
Para Vegas, um ETF global deve cumprir uma função clara, seja diversificar a carteira, acessar uma tese sem representantes locais ou adicionar exposição ao dólar. Isabella Nunes acrescentou que o produto precisa ser acompanhado de ferramentas que ajudem assessores, consultores e fundos de pensão a explicar essa função ao investidor final.
Receita e lucro ajudam a validar uma tendência estrutural
Vegas diferenciou as tendências estruturais das oportunidades táticas pelo horizonte e pelos fundamentos das empresas. Eletrificação, envelhecimento populacional, transição energética, infraestrutura de dados e inteligência artificial foram citados como movimentos capazes de se estender por 10, 15 ou 20 anos.
Segundo Vegas, a existência de receitas, lucros e investimentos efetivamente relacionados ao tema ajuda a separar uma transformação econômica de um movimento passageiro. Inteligência artificial, data centers e semicondutores foram apresentados como exemplos de setores nos quais os investimentos já se traduzem em expansão operacional.
Terras raras e defesa também foram classificadas como teses estruturais. Vegas relacionou as terras raras à eletrificação, aos veículos elétricos, à inteligência artificial e aos semicondutores. No setor de defesa, destacou os contratos governamentais de longo prazo e a continuidade dos investimentos públicos em tecnologia.
Cada tipo de ETF exige uma análise diferente
Nos ETFs de beta tradicional, os critérios centrais são custo, liquidez e tracking error, que mede a proximidade entre o desempenho do fundo e o índice. No smart beta, a análise precisa se concentrar na metodologia sistemática de seleção, incluindo fatores como valor, momento e qualidade.

Nos ETFs ativos, Nunes recomendou avaliar a equipe, o processo de investimento, o histórico de desempenho, a geração de alfa e o active share, indicador do grau de diferenciação da carteira em relação ao índice. Ela resumiu a comparação da seguinte forma: no beta tradicional, avalia-se o preço; no smart beta, a metodologia; e na gestão ativa, pessoas, processos e desempenho.
ETFs ativos ganham participação nos fluxos
Nunes afirmou que os ETFs ativos representam aproximadamente 10% do patrimônio da indústria global, mas recebem cerca de 40% do fluxo comprador líquido. A aceleração ocorreu depois das mudanças regulatórias adotadas em 2019.
Para Nunes, o investidor brasileiro já conhece a gestão ativa por meio dos fundos tradicionais. O ETF ativo oferece outra estrutura para essa abordagem, com maior transparência e eficiência de custos.
A executiva também apontou uma possível função na redução do risco de concentração. Em índices amplos de ações, poucas empresas podem representar parcelas elevadas da carteira. Na renda fixa, índices baseados no volume de dívida emitida podem atribuir mais peso aos maiores devedores, sem necessariamente privilegiar a qualidade de crédito.
Alocações temáticas ocupam a parcela satélite
Vegas inseriu os ETFs temáticos em uma estrutura de núcleo e satélites. Em carteiras de perfil mais arrojado, ele mencionou uma faixa de 10% a 15% para as alocações satélites.

Essa parcela pode ser direcionada a temas com baixa sobreposição em relação aos índices amplos. Segundo Vegas, estratégias de terras raras e defesa reúnem empresas pouco presentes nas principais posições do S&P 500 e do Nasdaq, o que pode ampliar a diversificação efetiva.
A definição do peso, porém, deve considerar o horizonte da tese e seu papel na carteira. Temas estruturais podem sustentar exposições mais longas, enquanto estratégias ligadas a determinados ciclos de commodities podem exigir uma abordagem mais tática.
UCITS e educação podem definir a próxima etapa
Nunes apontou a possível chegada ao Brasil de ETFs sob a estrutura europeia UCITS como um dos avanços esperados para a indústria. Segundo a executiva, esses produtos poderiam trazer benefícios tributários e operacionais aos investidores locais.
A migração da assessoria para o modelo remunerado por taxa fixa também foi associada ao crescimento dos ETFs. Nunes afirmou que mais de 60% do volume no mercado americano já se encontra nessa estrutura, que reduz a dependência de comissões por produto e favorece veículos transparentes e de menor custo.
Vegas e Nunes convergiram na avaliação de que a educação será decisiva. Com mais de 100 ETFs locais e mais de 300 BDRs de ETFs listados na B3, o desafio deixou de ser apenas ampliar a oferta e passou a incluir a explicação de como cada produto pode ser utilizado na construção de carteiras.