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“Máxima diversificação, máxima eficiência tributária: o lançamento do novo ETF na bolsa brasileira”, por Danilo Moreno

Em agosto de 2026, a Vanguard listou na Europa um ETF que não faz aposta em setor, tema ou região: apenas o mercado acionário global inteiro, por 0,07% ao ano. Ele replica o FTSE Global All Cap, índice com cerca de 10.000 empresas de mercados desenvolvidos e emergentes, de grandes a pequenas. Em duas semanas, o fundo reuniu perto de US$ 1 bilhão. No primeiro mês, chegou a cerca de US$ 2 bilhões, ritmo mais rápido do que o VWRA, um dos principais fundos globais da Vanguard e replicado localmente pelo VWRA11, captou em todo o seu primeiro ano.

Trata-se de um marco muito relevante dado o tamanho da indústria europeia de ETFs e entender o motivo dessa procura ajuda a esclarecer como uma carteira de longo prazo se organiza.

O lançamento preenche uma lacuna que existia na prateleira de fundos globais, visível em dois eixos. O primeiro é a amplitude. A maioria dos ETFs chamados de globais segue o FTSE All-World ou índices equivalentes, que reúnem cerca de 3.500 empresas de grande e médio porte e cobrem perto de 90% do valor investível do mundo. O FTSE Global All Cap acrescenta as pequenas empresas, chegando a cerca de 10.000 papéis e perto de 98% do mercado.

Créditos: Investo

 

As quase 6.500 empresas adicionais não garantem, necessariamente, retorno extra: por pesarem cerca de 9% da carteira, seu efeito sobre o resultado tende a ser modesto. O ganho está em outro lugar, que é dispensar a decisão de onde traçar a linha de corte entre tamanhos: a carteira passa a conter o mercado inteiro, não uma fatia dele.

O segundo eixo é a estrutura. Dois fundos que seguem o mesmo índice podem entregar retornos líquidos diferentes dependendo de onde estão domiciliados, por causa do tratamento de dividendos e da tributação na fonte. Um fundo sob o regime UCITS, domiciliado na Irlanda, tende a reduzir esse vazamento sobre os proventos reinvestidos, em comparação com um veículo domiciliado nos Estados Unidos.

Na prática brasileira, esses dois eixos apareciam separados. O WRLD11 oferece a amplitude all-cap, mas por um veículo domiciliado nos Estados Unidos. O VWRA11 oferece a eficiência UCITS, porém sobre o All-World, sem small caps. Faltava o ponto em que os dois eixos se encontram, e é esse encontro que chega agora ao investidor brasileiro pela B3. O MUND11 replica o Vanguard FTSE Global All-Cap UCITS na classe de acumulação, em que os dividendos são reinvestidos automaticamente dentro do próprio fundo. O custo total combina a taxa de administração do veículo local, de 0,19% ao ano, com o custo do fundo subjacente, de 0,07%, resultando em cerca de 0,26% ao ano para deter o mercado acionário global em um único ativo.

 

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Por que global, e não apenas Estados Unidos

Resolvida a questão do instrumento, fica a pergunta que de fato importa. Por que ancorar o núcleo de uma carteira no mercado global, e não apenas no americano, que entregou o melhor desempenho entre os grandes mercados nos últimos quinze anos?

O ponto de partida é a hipótese dos mercados eficientes, de Eugene Fama. Se os preços já incorporam a informação disponível a cada momento, ninguém detém, de forma consistente, a capacidade de prever qual país ou empresa vai liderar o próximo ciclo. Diante dessa incerteza, a posição mais honesta não é apostar em um vencedor, é adotar uma visão agnóstica: comprar o mundo na proporção em que ele já está precificado e deixar que o mercado, entendido como a soma das decisões de todos os investidores, continue ajustando o peso de cada empresa e de cada país. Deter a carteira global ponderada por capitalização é, nesse sentido, a posição neutra. Qualquer desvio dela, inclusive a concentração em um único país, é uma aposta ativa, que só se justifica com uma razão consistente para crer que vai se confirmar.

Aqui entra uma pergunta comum: se os Estados Unidos foram o melhor mercado da última década e meia, não faria sentido ficar só nele? A leitura parte do passado recente e o projeta adiante, o retrato clássico do viés de recência, a tendência de tratar o padrão mais próximo no tempo como se fosse uma lei, e não um período específico entre tantos outros.

Os levantamentos anuais do Mind the Gap, da Morningstar, mostram de forma recorrente uma diferença entre o retorno que um fundo entrega ao longo do tempo e o retorno que o investidor médio desse fundo efetivamente captura. Essa diferença nasce majoritariamente de um padrão comportamental: entrar depois que o desempenho recente já chamou atenção, e sair depois que ele já reverteu. Transposto para países, o mecanismo é o mesmo. Concentrar a carteira no mercado que mais subiu nos últimos anos é extrapolar uma tendência recente, não é necessariamente um raciocínio sobre o que vem a seguir.

Há também um detalhe que passa despercebido nessa discussão: um fundo global ponderado por capitalização já é hoje composto por algo entre 60% e 65% de ações americanas. Escolher o mundo mantém essa exposição no peso que ela tem e acrescenta o restante, sem transformar um país na carteira inteira.

Créditos: Investo

 

A segunda pergunta é o espelho da primeira: e se os Estados Unidos continuarem liderando? Podem continuar, e o argumento global convive com essa possibilidade; apenas se recusa a apostar no sentido contrário.

No fim de 1989, o Japão representava cerca de 42% da capitalização acionária global, com 13 das 20 maiores empresas do mundo, negociando a cerca de 60 vezes os lucros. Quem ancorasse a carteira no melhor mercado dos quinze anos anteriores teria escolhido o Japão. O Nikkei levou 34 anos para reaver aquele pico, retornando a ele só em 2024. A diferença para o Reino Unido, que perdeu participação de forma lenta ao longo de décadas sem um colapso equivalente, está menos na perda de liderança do que na valorização excessiva no topo.

 

Créditos: Investo

 

Há ainda uma vantagem mecânica para quem pensa em décadas. Quando a participação de um país cresce ou encolhe, o índice ponderado por capitalização realoca sozinho, sem exigir decisão. Foi o que aconteceu depois de 1989: a fatia japonesa recuou para perto de 5%, outros mercados ocuparam o espaço, e o investidor global acompanhou a transição sem precisar prevê-la. Essa é a distância entre uma abordagem sistemática, que segue uma regra, e uma discricionária, que depende de acertar o momento de entrar e sair de cada país.

Parte da liderança americana é concreta, sustentada pela rentabilidade das empresas e por vantagens estruturais que não desaparecem de um ano para o outro. Outra parte está no preço já embutido nas cotações. A alocação global reconhece a primeira parte e evita apostar que a segunda se mantenha indefinidamente.

O núcleo de uma carteira é a base que permanece enquanto posições táticas entram e saem ao redor dela. Para esse papel, um instrumento que reúne cerca de 10.000 empresas, a baixo custo e dentro de uma estrutura eficiente em tributação, oferece o que costuma ser buscado: amplitude e a dispensa de previsões sobre qual país vai liderar o próximo ciclo. Os US$ 2 bilhões captados na Europa em um mês sugerem que muitos investidores chegaram a conclusão parecida. No Brasil, o acesso a essa combinação passa agora pelo MUND11. Como em qualquer decisão de alocação, a escolha depende dos objetivos e do horizonte de cada investidor.

 

Danilo Moreno é Coordenador de Research na Investo, onde atua no desenvolvimento de conteúdos e análises voltados à democratização dos investimentos passivos no país. É bi-diplomado em Relações Internacionais e Economia pela FACAMP e especialista de investimentos certificado pela Anbima. Com mais de meia década de atuação, acumulou experiência na área de Gestão de Patrimônios, passando por casas como Liberta Investimentos e Nord Wealth, com foco em clientes de alta renda e private. Entusiasta de ETFs e da filosofia da gestão passiva.

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