
À esquerda, Luiz Masagao (B3). Ao centro, Joseph Markovitch (VettaFi). À direita, Rohan Reedy (Global X)
A indústria americana de ETFs deixou de ser apenas uma alternativa de baixo custo para replicar índices e passou a ocupar uma função central na construção de carteiras. Durante o painel sobre a evolução global do setor, Joe Markovitch, da VettaFi, e Rohan Reddy, da Global X ETFs, identificaram mudanças regulatórias, comerciais e tecnológicas como os principais motores dessa expansão.
Markovitch destacou a Rule 6c-11, adotada pela SEC em 2019 e conhecida como ETF Rule. A norma criou uma estrutura padronizada que tornou o lançamento de ETFs mais rápido e eficiente. Produtos que anteriormente poderiam levar um ou dois anos para chegar ao mercado passaram a ser desenvolvidos em prazos menores, abrindo espaço para estratégias ativas, temáticas e baseadas em derivativos.

Reddy apontou outras duas mudanças na distribuição. A primeira foi a transição da assessoria financeira americana de um modelo baseado em comissões para outro remunerado por taxas, o que aumentou a demanda por instrumentos de menor custo. A segunda foi a decisão da Charles Schwab, também em 2019, de eliminar as comissões para negociar ações e ETFs, movimento posteriormente acompanhado por outras corretoras.
ETFs ativos ampliam participação nos fluxos
A expansão do formato permitiu que gestores convertessem estratégias já estabelecidas em produtos negociados em bolsa. Em 2026, os ETFs ativos responderam por 37% dos fluxos da indústria americana, ante 10% em 2020.
O crescimento não ficou restrito a produtos alavancados ou mais complexos. A demanda se distribuiu entre estratégias de beta estratégico, fundamentos, temas e derivativos. Segundo Markovitch, a durabilidade e a função do produto dentro da carteira são mais importantes do que o lançamento de fundos associados apenas a tendências passageiras.
Esse princípio também se aplica à construção dos índices. A metodologia precisa ser investível, repetível e compatível com a liquidez dos ativos subjacentes. Ponderação, limites de concentração, rebalanceamento, tracking error e conformidade regulatória devem refletir a exposição que o ETF pretende entregar.
Liquidez depende dos ativos da carteira
A liquidez de um ETF não é determinada apenas pelo volume negociado de suas cotas. Ela também depende da liquidez dos ativos da carteira, da atuação dos formadores de mercado e do mecanismo de criação e resgate operado por participantes autorizados.

Reddy classificou a função de mercado de capitais como a base da estrutura dos ETFs. Spreads de compra e venda, diferenças entre preço e valor patrimonial e liquidez nos mercados primário e secundário afetam diretamente o custo de negociação para o investidor.
A discussão também estabeleceu um limite prático para a inovação. Embora muitas estratégias possam ser colocadas em um ETF, nem todo ativo é adequado a um veículo com liquidez intradiária. Essa avaliação é especialmente relevante quando a indústria considera incorporar ativos privados ou investimentos de difícil negociação.
Brasil tem oportunidades em renda fixa e carteiras-modelo
O painel identificou oportunidades no Brasil em renda fixa, estratégias de geração de renda, carteiras-modelo, plataformas digitais e provisão de liquidez. O desenvolvimento dos produtos precisa considerar o desafio de competir em um mercado no qual os juros locais permanecem elevados.
As carteiras-modelo foram apresentadas como um possível canal de distribuição. Nos Estados Unidos, bancos e corretoras utilizam combinações predefinidas de ETFs para simplificar a alocação, estabelecer pesos e oferecer diferentes perfis de risco. Esse mercado ainda está em estágio inicial no Brasil.
As carteiras-modelo também permitem que os assessores dediquem menos tempo à escolha e à negociação individual de produtos. Parte da alocação pode ser terceirizada, enquanto o profissional concentra o trabalho no planejamento financeiro, no relacionamento e em outros serviços de maior valor para o cliente.
Tokenização pode ampliar o horário de negociação
A tokenização foi apontada como outra possível etapa do desenvolvimento dos ETFs. Luiz Masagão, da B3, afirmou que a bolsa pretende lançar uma infraestrutura tokenizada para a negociação de ações, incluindo ETFs, em cooperação com a Comissão de Valores Mobiliários.
O primeiro caso de uso pretendido é a negociação contínua. Segundo o plano apresentado no painel, a infraestrutura tokenizada poderá permitir que ETFs sejam negociados 24 horas por dia, sete dias por semana.
Os participantes também avaliaram que a tokenização pode favorecer a negociação fracionada, acelerar transações e ampliar o acesso em mercados nos quais os investidores não utilizam contas tradicionais em corretoras. A estrutura também pode facilitar a identificação dos investidores finais pelos emissores dos produtos.
Educação passa a integrar a distribuição
A educação dos investidores foi apresentada como condição necessária para ampliar a adoção dos ETFs entre pessoas físicas, assessores e instituições. Em um mercado com grande quantidade de produtos, uma estratégia bem construída não garante sucesso comercial se o investidor não compreender sua finalidade ou sua posição na carteira.
Mais de mil ETFs foram lançados nos Estados Unidos em 2026, e o país já possui mais ETFs do que ações listadas. Nesse ambiente, pesquisa, conteúdo educacional e comunicação clara passaram a fazer parte da distribuição.
Para o Brasil, a principal conclusão é que o crescimento depende da combinação entre regulação, produtos investíveis, liquidez, distribuição eficiente e educação. A experiência americana mostra que a expansão não resultou apenas do lançamento de novos fundos, mas também da redução das barreiras que impediam investidores e instituições de usar ETFs como instrumentos permanentes de alocação.