Danilo Moreno, Coordenador de Research da Investo, aborda com detalhes como um índice focado no setor de utilidade pública performou ao longo dos últimos 20 anos, em comparação com outros benchmarks do mercado. Um artigo ÚTIL para todos que gostam de dados e análise.
O melhor histórico de vinte anos da bolsa brasileira não veio da tecnologia, das commodities ou dos grandes bancos. Veio de um dos cantos mais entediantes do mercado: energia elétrica, saneamento e gás, o conjunto de empresas reunido no índice UTIL da B3. Entre janeiro de 2006 e maio de 2026, R$ 1 aplicado no UTIL virou R$ 18,09. No Ibovespa, o mesmo real virou R$ 5,19.

O número impressiona, mas um número sozinho é curiosidade, não argumento. A pergunta que interessa é o que esse setor tinha que o resto do mercado não tinha. A resposta ajuda a entender tanto o retorno quanto o risco de quem investe nele hoje.
Uma renda variável com motor de renda fixa
A receita de uma distribuidora de energia ou de uma companhia de saneamento não é definida pelo mercado. É definida por contrato, e esse contrato é reajustado por índices de preços. Some a isso uma demanda que quase não cai nas recessões, porque ninguém deixa de usar luz ou água quando a economia desacelera, e o resultado é um fluxo de caixa que se comporta como um título indexado à inflação.
É daí que vem a semelhança do UTIL com o IMA-B, o índice das NTN-Bs. Ao longo dos vinte anos, os dois se moveram na mesma direção. A diferença está no que acontece por cima dessa base: uma NTN-B paga o cupom e nada mais, enquanto as empresas de utilidade pública também crescem. Foi por isso que o UTIL, com o mesmo mecanismo de proteção contra a inflação, entregou um retorno maior, cerca de 3 pontos percentuais ao ano acima do IMA-B. É, em essência, uma NTN-B com crescimento.
O mecanismo explica o comportamento
Uma vez entendido o motor, os resultados deixam de ser uma lista de números e passam a fazer sentido.
Se o fluxo de caixa é indexado à inflação, o retorno real deveria ser consistente, independentemente do humor da bolsa. E foi: o UTIL rendeu IPCA mais 9,2% ao ano, com ganho real positivo na grande maioria das janelas de três anos, algo que o Ibovespa não chegou perto de fazer.
Se a demanda é inelástica, o setor deveria sofrer menos quando o mercado entra em pânico. E sofreu menos: nas quatro grandes crises de mercado do período (2008, a recessão de 2014 a 2016, a Covid e o ciclo de alta da Selic em 2021 e 2022), o UTIL caiu menos que o Ibovespa em todas. Em 2008, a diferença passou de 22 pontos percentuais.
E se a vantagem viesse do motor, e não de um período de sorte, ela deveria se repetir ao longo do tempo. Foi o que ocorreu: em qualquer janela de dez anos dentro desses vinte, o UTIL superou o Ibovespa, sem uma única exceção. Mesmo em janelas mais curtas, como de 3 anos, o índice teria superado o IBOV em 92% do tempo.

O que pesa do outro lado?
Como a tarifa é definida pela regulação, o setor também fica exposto a mudanças de regra. Foi o que aconteceu em setembro de 2012 com a MP 579, apelidada de “11 de setembro do setor elétrico”. Da noite para o dia, o governo anunciou um corte de cerca de 20% nas tarifas em troca da renovação antecipada de concessões, e as ações da Eletrobras caíram perto de 50% até o fim daquele ano. A bolsa como um todo ia bem naquele momento; o que derrubou o setor foi uma decisão política dirigida à receita regulada. Revisões tarifárias e renovações de concessões voltam à pauta de tempos em tempos, e fazem parte do jogo de quem investe em utilities.
O UTIL também continua sendo um ativo de renda variável. A pior queda no período chegou a 42%, e o risco é maior que o de um título público. Cair menos que o Ibovespa está longe de oferecer a tranquilidade da renda fixa.
O básico bem feito
O que os vinte anos mostram é um setor vencedor. O UTIL combinou três coisas que raramente andam juntas: retorno maior, mais consistência e risco menor do que o de índices mais amplos como Ibovespa e o IDIV. Não exigiu uma tese ousada nem acertar o momento exato de comprar; bastou carregar, ano após ano, empresas de receita previsível e reajustada pela inflação.
No fim, é uma lição bem brasileira: fazer o arroz com feijão bem feito, sem grandes apostas, costuma render mais no longo prazo do que perseguir o que está na moda. O setor sem glamour foi justamente o que superou as opções mais conhecidas da bolsa ao longo de duas décadas.
Quem quiser essa exposição em um único ativo encontra o UTLL11, ETF da Investo que replica o índice UTIL da B3. A decisão, como sempre, depende dos objetivos, do horizonte e da tolerância a risco de cada um.
