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A gestão ativa encontrou condições mais favoráveis na América Latina durante o primeiro semestre de 2026. Em um ambiente marcado por maior volatilidade e dispersão entre os ativos, menos da metade dos fundos domésticos ficou abaixo de seus benchmarks nas principais categorias analisadas no Brasil, Chile e México. As taxas de desempenho inferior variaram entre 24,5% e 46,3%.
A fotografia recente, contudo, contrasta com o histórico mais amplo. Em todas as categorias domésticas acompanhadas pelo Scorecard SPIVA da América Latina, a maioria dos fundos ativos perdeu para o respectivo índice de referência ao longo dos dez anos encerrados em junho de 2026.
A diferença entre os resultados do semestre e da década é o ponto central do estudo. Superar um índice em determinada configuração de mercado é possível, como ocorreu com a maioria dos fundos domésticos no início de 2026. Manter essa vantagem por diferentes ciclos econômicos e condições financeiras mostrou-se muito mais difícil.
SPIVA América Latina em cinco números
| Indicador | Resultado |
|---|---|
| Menor taxa de desempenho inferior no semestre (títulos de dívida brasileira) | 24,51% |
| Maior taxa de desempenho inferior no semestre (Renda Variável Brasil) | 46,31% |
| Fundos brasileiros de renda variável abaixo do índice em dez anos | 89,15% |
| Fundos brasileiros de dívida corporativa abaixo do índice em dez anos | 93,63% |
| Sobrevivência dos fundos brasileiros de renda variável em dez anos | 47,80% |
Os números não definem um vencedor absoluto no debate entre gestão ativa e estratégias baseadas em índices. Eles revelam duas dimensões distintas: as oportunidades que podem surgir em um período específico e a dificuldade de transformar esses resultados em vantagem persistente.
O que o SPIVA mede?
Produzido pela S&P Dow Jones Indices, o SPIVA compara fundos de gestão ativa com índices compatíveis com suas categorias de investimento. A edição latino-americana cobre fundos domiciliados no Brasil, Chile e México e denominados nas moedas locais.
No Brasil, os fundos da categoria ampla de renda variável são comparados com o S&P Brazil BMI. Os fundos concentrados em ações de maior capitalização têm o S&P Brazil LargeCap como referência, enquanto os fundos de ações de média e pequena capitalização são confrontados com o S&P Brazil MidSmallCap.
Na renda fixa, o IDA representa o mercado de debêntures e o IMA funciona como referência para títulos públicos.
O estudo também apresenta taxas de sobrevivência, médias com pesos iguais, médias ponderadas pelo patrimônio, quartis de desempenho e comparações ajustadas pelo risco. A combinação dessas métricas permite distinguir o retorno médio da categoria da experiência observada na maior parte dos fundos.
Brasil teve resultados distintos entre grandes e pequenas empresas
O mercado acionário brasileiro apresentou desempenho heterogêneo no primeiro semestre. O S&P Brazil LargeCap avançou 2,96%, enquanto o S&P Brazil BMI registrou alta de 1,61%. O S&P Brazil MidSmallCap recuou 1,55%, refletindo um período mais difícil para as ações de média e pequena capitalização.
A liderança das grandes empresas também apareceu nos resultados dos fundos. Somente 31,21% dos fundos brasileiros de large caps ficaram abaixo do benchmark, o que significa que aproximadamente dois em cada três superaram o S&P Brazil LargeCap no semestre.
Na categoria ampla de renda variável, 46,31% dos fundos perderam para o S&P Brazil BMI. Entre os fundos mid e small caps, 44,49% ficaram abaixo do índice de referência. A maioria dos fundos, portanto, superou o benchmark nas três categorias brasileiras de ações.
Gestão ativa no Brasil: primeiro semestre versus dez anos
| Categoria | Benchmark | Retorno do índice no semestre | Fundos abaixo no semestre | Fundos abaixo em dez anos |
|---|---|---|---|---|
| Renda variável ampla | S&P Brazil BMI | 1,61% | 46,31% | 89,15% |
| Large caps | S&P Brazil LargeCap | 2,96% | 31,21% | 67,42% |
| Mid e small caps | S&P Brazil MidSmallCap | -1,55% | 44,49% | 81,72% |
| Dívida corporativa | IDA | 4,40% | 24,51% | 93,63% |
| Dívida pública | IMA | 5,83% | 37,59% | 93,40% |
O melhor resultado relativo do semestre apareceu na dívida corporativa: apenas 24,51% dos fundos ficaram abaixo do IDA. Na renda variável, as estratégias de large caps apresentaram a menor taxa de desempenho inferior. Em dez anos, os benchmarks superaram a maioria dos fundos nas cinco categorias brasileiras.
Aproximadamente dois em cada três fundos brasileiros de large caps superaram o benchmark no primeiro semestre. Em dez anos, 67,42% ficaram abaixo do índice.
Maior dispersão abriu espaço para a seleção de ações
O resultado mais favorável dos gestores brasileiros coincidiu com o aumento da dispersão dos retornos, especialmente no universo de ações de maior capitalização.
Dispersão é uma medida das diferenças entre os retornos dos componentes de um índice. Quando os papéis apresentam desempenhos semelhantes, a escolha entre as ações produz menor diferenciação em relação ao mercado. Quando a distância entre vencedores e perdedores aumenta, a seleção dos ativos exerce influência maior sobre o resultado da carteira.
Entenda: o que é dispersão?
Dispersão baixa: as ações apresentam retornos mais próximos, o que reduz o espaço para diferenciação por meio da seleção de papéis.
Dispersão alta: a distância entre ações vencedoras e perdedoras aumenta, tornando as escolhas da carteira mais relevantes.
Uma dispersão maior amplia tanto o ganho potencial associado à seleção dos papéis com melhor desempenho quanto a perda causada pela escolha dos ativos mais fracos. Ela cria oportunidade, mas não garante desempenho superior.
Nas três categorias brasileiras de renda variável, a dispersão no nível das ações aumentou ao longo do semestre. O S&P Brazil LargeCap apresentou o maior aumento absoluto entre os mercados examinados. No Chile e no México, os níveis permaneceram estáveis ou registraram ligeira queda.
Ao mesmo tempo, as ações de maior capitalização superaram as de média e pequena capitalização no Brasil. Essa combinação favoreceu os fundos que mantiveram maior exposição às large caps com melhor desempenho.
Fundos superaram a distribuição sugerida pelas ações
O relatório também compara a proporção de fundos abaixo do benchmark com a proporção de ações individuais que perderam para o índice.
Entre os componentes do S&P Brazil BMI, 58,6% tiveram retorno inferior ao índice no primeiro semestre. Entre os fundos ativos da categoria, a taxa foi menor, de 46,3%. No segmento large cap, 38,5% das ações perderam para o índice, enquanto 31,2% dos fundos ficaram abaixo do benchmark.
Esse resultado contraria um comportamento frequente nos estudos SPIVA, nos quais a parcela de fundos abaixo do índice costuma ser maior que a proporção de ações com desempenho inferior. No primeiro semestre de 2026, a relação se inverteu nas categorias domésticas de renda variável do Brasil, Chile e México.
A comparação indica que os gestores, como grupo, aproveitaram de maneira eficiente a distribuição dos retornos durante o semestre. O resultado não foi uniforme entre os fundos, mas a proporção de estratégias bem-sucedidas foi superior à sugerida pela própria assimetria entre os componentes dos índices.
O patrimônio dos fundos também influenciou os resultados
O SPIVA calcula o desempenho médio de duas maneiras. Na média com pesos iguais, cada fundo exerce a mesma influência sobre o resultado. Na média ponderada por ativos, os fundos com maior patrimônio possuem peso maior.
A comparação ajuda a identificar se os resultados mais fortes estiveram concentrados nos fundos maiores ou menores.
Desempenho médio das categorias brasileiras no semestre
| Categoria | Retorno do índice | Média com pesos iguais | Média ponderada por ativos |
|---|---|---|---|
| Renda variável ampla | 1,61% | 2,73% | 2,57% |
| Large caps | 2,96% | 4,54% | 6,18% |
| Mid e small caps | -1,55% | -0,55% | 1,58% |
| Dívida corporativa | 4,40% | 6,16% | 6,54% |
| Dívida pública | 5,83% | 5,38% | 6,37% |
Entre os fundos de large caps, a média ponderada por ativos chegou a 6,18%, acima da média simples de 4,54% e do retorno de 2,96% do benchmark. Os fundos de maior patrimônio apresentaram, em conjunto, os resultados mais fortes dessa categoria.
Nos fundos mid e small caps, a média simples ficou em -0,55%, enquanto a média ponderada por ativos alcançou 1,58%. Ambas superaram o retorno de -1,55% do índice, mas a diferença também aponta para um desempenho melhor dos fundos maiores.
Na categoria ampla de renda variável, a média simples de 2,73% ficou ligeiramente acima do resultado ponderado por patrimônio, de 2,57%. O tamanho dos fundos, portanto, não estabeleceu uma relação única com o desempenho em todas as categorias.
A vantagem muda quando o horizonte aumenta
Os resultados brasileiros se transformam quando o período de comparação é ampliado.
Quanto mais longo o horizonte, maior o desafio
| Categoria | 6 meses | 1 ano | 3 anos | 5 anos | 10 anos |
|---|---|---|---|---|---|
| Renda variável ampla | 46,31% | 57,58% | 77,20% | 76,19% | 89,15% |
| Large caps | 31,21% | 43,18% | 75,48% | 72,07% | 67,42% |
| Mid e small caps | 44,49% | 51,19% | 59,11% | 63,93% | 81,72% |
| Dívida corporativa | 24,51% | 23,22% | 35,03% | 39,46% | 93,63% |
| Dívida pública | 37,59% | 46,50% | 48,64% | 49,91% | 93,40% |
A deterioração não ocorre de maneira linear. Nos fundos de large caps, a taxa de desempenho inferior em dez anos é menor que os percentuais de três e cinco anos. Na dívida corporativa, a proporção de fundos abaixo do índice em um ano é ligeiramente inferior à registrada no semestre.
O resultado final, contudo, é consistente: em dez anos, a maioria dos fundos perdeu para o benchmark nas cinco categorias brasileiras.
Na renda variável ampla, o S&P Brazil BMI apresentou retorno médio anualizado de 12,69% em dez anos, ante 10,54% da média com pesos iguais dos fundos. No segmento de large caps, o índice registrou 12,64%, contra 11,73% dos fundos.
Uma média acima do índice não significa maioria vencedora
Os fundos brasileiros de mid e small caps oferecem um exemplo importante sobre a interpretação dos dados.
Em dez anos, a média anualizada com pesos iguais da categoria foi de 12,75%, ligeiramente superior aos 12,51% do S&P Brazil MidSmallCap. Apesar disso, 81,72% dos fundos ficaram abaixo do índice no mesmo período.
Entenda: média e proporção medem coisas diferentes
Retorno médio: mostra o resultado agregado da categoria e pode ser elevado por um grupo pequeno de fundos com desempenho muito forte.
Percentual abaixo do benchmark: informa quantos fundos perderam para o índice.
Uma categoria pode apresentar média superior ao benchmark mesmo quando a maioria de seus fundos fica abaixo dele.
No caso das estratégias de mid e small caps, uma parcela reduzida apresentou retornos suficientemente elevados para puxar a média para cima. A experiência predominante, contudo, foi de desempenho inferior ao benchmark.
Esse resultado reforça a necessidade de combinar diferentes indicadores. Média, percentual de vencedores, quartis de desempenho e sobrevivência respondem a perguntas distintas sobre uma mesma categoria.
Sobrevivência também faz parte da análise
Um fundo existente no começo de determinado período fazia parte do conjunto de escolhas disponível naquele momento, ainda que fosse posteriormente liquidado ou incorporado.
O SPIVA inclui esses produtos nos cálculos, reduzindo o viés que surgiria caso fossem considerados apenas os fundos que permaneceram em operação.
Por que os fundos encerrados entram no estudo?
Excluir retrospectivamente produtos liquidados ou incorporados produziria uma visão mais favorável do mercado de fundos. A metodologia considera o conjunto de oportunidades existente no início de cada período e apresenta separadamente o percentual que permaneceu ativo.
Sobrevivência dos fundos brasileiros em dez anos
| Categoria | Fundos no início do período | Sobrevivência |
|---|---|---|
| Renda variável ampla | 295 | 47,80% |
| Large caps | 89 | 70,79% |
| Mid e small caps | 93 | 65,59% |
| Dívida corporativa | 204 | 25,49% |
| Dívida pública | 394 | 69,29% |
Na renda variável ampla, menos da metade dos 295 fundos existentes no início da janela permaneceu ativa até o final dos dez anos. Na dívida corporativa, a sobrevivência foi ainda menor: 25,49% dos 204 fundos iniciais continuaram em funcionamento.
O encerramento ou a incorporação de um fundo não equivale necessariamente a uma perda para todos os cotistas. A taxa de sobrevivência mede a permanência do produto como entidade independente, não o resultado financeiro individual de cada investidor.
Renda fixa também teve um semestre positivo
A renda fixa apresentou as menores taxas de desempenho inferior entre as categorias domésticas do relatório.
O IDA, referência para o mercado de debêntures, avançou 4,40%. Apenas 24,51% dos fundos de dívida corporativa ficaram abaixo do índice. O retorno médio da categoria foi de 6,16% com pesos iguais e de 6,54% na ponderação por patrimônio.
O IMA, referência para títulos públicos, subiu 5,83%. Entre os fundos da categoria, 37,59% perderam para o índice. A média simples ficou em 5,38%, abaixo do benchmark, enquanto a média ponderada por ativos chegou a 6,37%, acima dele.
A divergência mostra novamente por que um único indicador não oferece uma leitura completa. A maioria dos fundos de títulos públicos superou o índice, embora a média simples tenha ficado abaixo dele. Ao mesmo tempo, a média ponderada por patrimônio indica desempenho relativamente mais forte entre os fundos maiores.
Em dez anos, 93,63% dos fundos de dívida corporativa perderam para o IDA e 93,40% dos fundos de dívida pública ficaram abaixo do IMA. A média anualizada dos fundos corporativos foi de 8,27%, ante 10,06% do índice. Na dívida pública, os fundos registraram 9,59%, contra 9,89% do benchmark.
Chile e México repetem o contraste regional
O padrão identificado no Brasil também apareceu nos outros mercados da região.
Brasil, Chile e México
| Mercado | Retorno do benchmark no semestre | Fundos abaixo no semestre | Fundos abaixo em dez anos | Sobrevivência em dez anos |
|---|---|---|---|---|
| Brasil, renda variável ampla | 1,61% | 46,31% | 89,15% | 47,80% |
| Chile, renda variável | 3,43% | 32,50% | 88,10% | 28,57% |
| México, renda variável | 5,81% | 43,48% | 75,61% | 82,93% |
No Chile, o S&P Chile BMI avançou 3,43%, enquanto 32,50% dos fundos ficaram abaixo do índice. Em dez anos, a taxa de desempenho inferior chegou a 88,10%. Apenas 28,57% dos fundos existentes no início da década permaneceram ativos até o fim do período.
No México, o S&P/BMV IRT subiu 5,81%. A proporção de fundos abaixo do benchmark foi de 43,48% no semestre e de 75,61% em dez anos. A sobrevivência de 82,93% foi a maior entre as categorias domésticas de renda variável examinadas.
Fundos globais enfrentaram um cenário mais difícil
O resultado favorável da gestão ativa doméstica não se repetiu com a mesma intensidade entre os fundos latino-americanos dedicados a ações globais.
Entre os fundos brasileiros de renda variável global denominados em reais, 61,90% ficaram abaixo do S&P World Index no primeiro semestre. A taxa alcançou 94,12% no período de dez anos.
Os fundos brasileiros de ações dos Estados Unidos foram uma exceção no curto prazo. Somente 38,10% perderam para o S&P 500 em reais. A média com pesos iguais foi de 6,82%, contra 4,10% do índice, enquanto a média ponderada por ativos alcançou 8,96%. Em dez anos, porém, 95% dos fundos ficaram abaixo do benchmark.
O estudo identifica, em uma amostra dos fundos brasileiros de ações dos Estados Unidos com melhor desempenho, o uso de contratos futuros do S&P 500 combinados com títulos soberanos locais. A estrutura mostra que derivativos e ETFs ligados a índices também podem ser empregados para executar decisões táticas de gestão ativa.
A distinção entre gestão ativa e investimento em índices, portanto, não depende somente do instrumento utilizado. Um gestor ativo pode empregar futuros ou ETFs para implementar uma alocação, enquanto uma estratégia baseada em índices pode seguir regras predeterminadas sem tentar antecipar movimentos do mercado.
O que o estudo ensina sobre a avaliação de fundos?
O primeiro semestre de 2026 demonstra que a gestão ativa pode superar índices em ambientes específicos. No Brasil, o aumento da dispersão, a liderança das large caps e a presença de diferenças mais amplas entre ações vencedoras e perdedoras criaram condições favoráveis para a seleção de ativos.
O horizonte de dez anos traz uma conclusão diferente. A maioria dos fundos ficou abaixo dos benchmarks em todas as categorias domésticas, inclusive naquelas que apresentaram resultados fortes no semestre.
Três conclusões centrais
1. O curto prazo favoreceu a gestão ativa
A maioria dos fundos domésticos superou os benchmarks no primeiro semestre, com destaque para large caps e dívida corporativa no Brasil.
2. Dispersão criou oportunidade, não garantia
Uma distância maior entre ações vencedoras e perdedoras aumentou o espaço para seleção, mas também ampliou as consequências de escolhas malsucedidas.
3. Persistência permaneceu como o principal desafio
Em dez anos, a maioria dos fundos ficou atrás dos índices em todas as categorias domésticas analisadas no Brasil, Chile e México.
O contraste entre as janelas reforça a importância de avaliar diferentes horizontes. Um resultado recente pode refletir decisões bem executadas, mas também condições particularmente favoráveis ao estilo adotado pelo fundo. Um período mais longo incorpora diferentes ambientes e oferece um teste mais abrangente de consistência.
Mais do que apontar um vencedor definitivo entre gestão ativa e índices, o SPIVA evidencia a diferença entre sucesso pontual e persistência. O semestre mostra que gestores podem aproveitar determinadas configurações do mercado. A década mostra que transformar essas oportunidades em vantagem contínua permanece um desafio relevante.