
À esquerda, Fabiana Perobelli (B3). Ao centro, Paulo Dafonseca (BTG). À direita, Pietro Almeida (UBS),
O investidor que avalia um ETF apenas pelo volume negociado pode subestimar sua capacidade efetiva de execução. No painel mediado por Fabiana Perobelli, da B3, Paulo Dafonseca afirmou que o principal indicador de liquidez não é o giro diário da cota, mas a profundidade dos ativos que compõem a cesta.
Segundo Dafonseca, o formador considera o peso, os preços de compra e venda, o spread e a quantidade disponível de cada componente para calcular suas ofertas. Como essas posições podem ser protegidas ou ajustadas no mercado primário, a quantidade visível no livro não representa necessariamente toda a liquidez que pode ser fornecida.
Pietro Almeida reforçou que um ETF com baixo volume diário pode comportar uma operação significativamente maior se os ativos subjacentes forem líquidos. Para Almeida, o volume exibido é relevante, mas não deve ser utilizado isoladamente para avaliar a capacidade de negociação do produto.
Criação e resgate sustentam a oferta de liquidez
Dafonseca explicou que o mecanismo de criação e resgate conecta as cotas negociadas na bolsa aos ativos da carteira. Essa estrutura permite que o formador reduza ou ajuste sua posição no mercado primário, diminuindo o custo de manter estoques e facilitando a reposição das ofertas.

No modelo in-kind, os ativos da cesta são entregues para criar cotas ou recebidos durante o resgate. No modelo in-cash, a operação ocorre com recursos financeiros. Dafonseca observou que a estrutura aplicável depende das regras de cada ETF.
Almeida acrescentou que o formador não precisa necessariamente possuir as cotas antes de oferecê-las. Conforme as características do produto, a instituição pode vender e posteriormente reciclar a posição no mercado primário. Esse processo amplia a capacidade de atendimento sem exigir um estoque permanente de cotas.
Ativos pouco líquidos continuam impondo limites
A atuação do formador não elimina as restrições dos ativos subjacentes. Dafonseca alertou que uma posição muito concentrada e pouco líquida será refletida de alguma forma na negociação do ETF. Se um componente relevante entrar em leilão ou tiver sua negociação interrompida, a precificação e a capacidade de proteção do formador também serão afetadas.
Almeida afirmou que tecnologia, instrumentos alternativos e equipes especializadas ajudam a mitigar essas limitações. O avanço da formação de mercado no Brasil, segundo o representante do UBS, inclui estruturas mais profissionais e times dedicados dentro das grandes instituições.
Dafonseca ressaltou, no entanto, que não existe solução capaz de remover por completo as restrições da cesta. O formador pode ampliar o acesso à liquidez disponível e reduzir oscilações na cotação, mas a profundidade final continuará condicionada à possibilidade de negociar ou proteger os ativos da carteira.
Ordens maiores exigem estratégia de execução
Para operações de maior porte, Dafonseca recomendou cautela com ordens a mercado. Uma ordem muito grande pode atravessar diferentes níveis do livro e produzir um preço médio pior do que o observado inicialmente. Entre as alternativas estão o uso de ordens limitadas e o fracionamento da operação ao longo do pregão.

Almeida recomendou que investidores e assessores procurem o formador de mercado ou a própria gestora antes de executar lotes maiores. A identidade do formador é pública, e a corretora pode intermediar o contato para verificar a profundidade disponível e organizar a execução.
Dafonseca acrescentou que a quantidade apresentada no livro pode ser reposta à medida que as ofertas são consumidas. Por isso, uma ordem não deve ser planejada apenas com base no número de cotas visível em determinado instante.
Transparência orienta a formação do preço
Almeida destacou que o ETF oferece uma referência objetiva de preço porque sua carteira é conhecida e pode ser acompanhada durante o pregão. O formador utiliza o valor dos componentes para atualizar continuamente suas ofertas de compra e venda.
Essa dinâmica, segundo Almeida, diferencia o ETF de ações individuais e fundos imobiliários. Nesses ativos, o preço pode depender de avaliações e informações que não são reproduzidas continuamente na tela. No ETF, a cesta e o mercado primário fornecem referências adicionais para aproximar a cotação de seu valor patrimonial.
Fabiana Perobelli concluiu que o formador funciona como uma engrenagem de liquidez e transparência. O principal entendimento do painel foi que a avaliação de um ETF precisa combinar o volume visível, a profundidade dos ativos subjacentes e a capacidade operacional do formador de mercado.